Tidetable · Nº 8 · 1 de novembro de 2026

O último trem é uma promessa

O trem das 23:52 parte de uma cidade quase vazia todas as noites. Ninguém precisa dele, e é exatamente por isso que ele tem de circular.

Por Ilse Marrow · 3 minutos · Leia na web

O último trem que sai da cidade parte oito minutos antes da meia-noite e, na maioria das noites, leva menos passageiros do que portas. Já contei. Numa terça-feira de outubro, éramos onze pessoas espalhadas por seis vagões: duas enfermeiras voltando para casa depois do turno da noite, um homem com um estojo de violoncelo que dormiu desde a primeira estação, um grupo de estudantes que desceu junto sem se despedir e o resto de nós, cada qual num assento de costas para o sentido do movimento, vendo as luzes das plataformas se apagarem uma a uma.

Por qualquer cálculo, o 23:52 não deveria existir. Um ônibus resolveria o problema por um décimo do custo, e um vale-táxi para as enfermeiras sairia mais barato. A operadora sabe disso; a cada poucos anos, o relatório de um consultor diz o mesmo numa tabela.1 Ainda assim, o trem circula, e passei a achar que isso acontece porque ele não é exatamente um trem. É uma promessa impressa no rodapé de um horário.

O que diz a última linha

Leia qualquer horário de baixo para cima, e ele muda de natureza. As primeiras colunas tratam de capacidade: quantas pessoas, com que frequência, a que velocidade. A última coluna trata de outra coisa. Ela diz até que horas você pode ficar fora, a que distância de casa uma conversa pode se aventurar antes de ter de terminar. Ela define o limite externo de uma noite.

Quando uma ferrovia corta o último trem, quem reclama raramente é quem o usava. São as pessoas que poderiam tê-lo usado. A mulher que nunca perdeu o 23:52 ainda planeja os jantares sabendo que poderia pegá-lo. Tire o trem de circulação e o jantar acaba às dez, porque agora existe um risco, e só o risco já basta.

Um horário é uma lista de horas. Sua última linha é uma lista de permissões.

Escrevi essa frase no verso de uma passagem naquela terça-feira de outubro, e ainda acredito nela, embora soe melhor à meia-noite do que de manhã.

Para quem é

As enfermeiras são a resposta óbvia, e são importantes. Uma cidade que quer que as pessoas trabalhem à noite lhes deve um jeito de voltar para casa que não dependa de alguém ficar acordado esperando. Mas o violoncelista também importa, assim como os estudantes, e também quem quer que eu seja naquele trem: alguém que ficou tempo demais em algo bom. O último trem é o jeito que a cidade tem de dizer que é permitido ficar tempo demais, dentro do razoável, uma vez ou outra.

Há um momento, algumas estações adiante, em que o maquinista diminui a intensidade das luzes nos vagões vazios para economizar energia, e o trem segue pela escuridão com apenas o nosso vagão iluminado, como um cômodo carregado para fora de uma casa. Ninguém fala. O violoncelista dorme. É o lugar mais público que conheço onde se pode estar inteiramente só.

O custo de uma promessa

Não finjo que este seja um argumento que uma comissão de finanças aceitaria. Uma promessa é cara precisamente porque é cumprida nas noites em que não faz falta. É isso que faz dela uma promessa, e não um serviço.2 No dia em que o 23:52 circular apenas quando estiver lotado, deixará de ser o último trem e se tornará apenas mais um trem que por acaso sai tarde.

Então conto os passageiros e não digo a ninguém quantos são. Onze é pouca gente. Também é exatamente gente suficiente para encher uma cidade com a certeza de que pode voltar para casa.

Notas
  1. O mais recente é ponderado, justo e tem umas quarenta páginas. A recomendação aparece no segundo parágrafo; as outras trinta e nove páginas explicam por que ninguém vai segui-la.

  2. A distinção vem da minha avó, que a fazia a propósito de faróis, não de trens. Ela nunca tinha visto um farol; estava falando do irmão, que telefonava todo domingo, tivesse ou não algo a dizer.

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